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Fora de Série

Fora de série | Crítica do filme “Nós” de Jordan Peele

Antes mesmo de ser chamado de “Hitchcock dos tempos modernos”, qualquer nova obra de Jordan Peele já seria bastante esperada.

Não à toa, afinal, o arrebatador Corra! (2017) lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original, colocando-o sob holofotes admirados de público e crítica. Com Nós, Peele nos tira do conforto dessa e qualquer outra luz para enfrentarmos nosso maior medo: nós mesmos.

Na trama, anos após uma experiência traumática ao se perder de seus pais em uma praia, Adelaide (Lupita Nyong’o) retorna adulta à região para férias, agora com seu marido (Winston Duke) e filhos (Shahadi Wright e Evan Alex).

Entretanto, sua calmaria é interrompida quando um grupo de aparência idêntica a eles invade sua casa, cujo único objetivo aparente é matar cada um deles.

Roteiro

Foto: Universal Pictures

Diante desse cenário perfeito para um thriller, desses de te colocar na ponta do assento, Nós eleva a estranheza e a tensão viciante de Corra! potências acima. Nesse sentido, o script consegue evitar o mediano sem se tornar enfadonho com tanta autoapreciação –  elitismo comum em alguns “filmes-arte”.

A narrativa avança rápida, e mesmo que as pistas sejam dadas paliativamente, as escolhas de ação, drama e humor dão fluidez ao enredo.

Foto: Universal Pictures

Em meio a jatos de sangue e pitadas de ficção científica, Nós captura a audiência logo em sua primeira camada, mas não traça atalhos para quem foge de seus subtextos.

Tal qual os loucos que abrem os olhos dos outros à força em Bird Box (2018), o pesadelo criado por Peele alude, até a visões mais imediatistas, o dano das máscaras aos problemas sociais, a ganância irresponsável dos altos poderes e, acima de tudo, a desvalorização humana.

Foto: Universal Pictures

Para isso, o longa fecha os enredos que abre de forma satisfatória, de modo que instiga o espectador a montar seu quebra-cabeça sem subestimar nenhum dos lados.

Personagens

O elenco familiar tem uma química que ultrapassa a tela e traz credibilidade quase de imediato, em semelhança à família do também ótimo Um Lugar Silencioso (2018).

Foto: Universal Pictures

Duke volta com seu carisma de Pantera Negra (2018), mas seu personagem não é tão desenvolvido, o que também acontece com a figura de Wright, sua filha na história.

Ela ainda se sobressai pelo excelente trabalho; é alguém para se prestar atenção no futuro. Por outro lado, seu irmão, vivido por Alex, tem um bom arco próprio e fundamental no desfecho do longa.

Em paralelo, a maior estrela de Nós é Nyong’o, sem dúvidas, que entrega a melhor atuação de sua carreira até hoje.

Foto: Universal Pictures

Lupita

A dualidade entre Adelaide e sua “cópia” se equilibra nas diferenças intensas, ao mesmo tempo em que é conectada por detalhes.

Seus movimentos e vozes, na mão de outras atrizes, poderiam facilmente cair no caricato. Nyong’o supera essas expectativas, levando consigo o filme para cima.

Por não limitar o espectador a emoções exclusivas a cada personagem, a atriz embaralha nossas percepções para ambos os lados, de sentirmos medo da protagonista e empatia pela vilã.

Foto: Universal Pictures

Além disso, a montagem de Nós agrega à compreensão dos mistérios ao fugir de firulas, como os planos longos e apáticos de Suspiria (2018). Entretanto, o maior plot twist pode não ser tão inesperado, o que não diminui a experiência, principalmente no ato final.

É quando Peele conclui seu mosaico de terror que entretém e instiga, fascina e incomoda, reforçando seu nome como um expoente no panteão de um nova Hollywood.

Mal posso esperar por seu próximo pesadelo.

Texto por Caíque Pereira

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